Duas perguntas resolvem quase todos os casos, e nenhuma delas é “qual a porcentagem certa”. A primeira: quanto custa o orçamento fechado, com peça e mão de obra, na assistência da sua cidade. A segunda: quantos meses de atualização de segurança ainda restam ao seu aparelho. Com esses dois números na mão, o resto é uma divisão — e é ela que decide, não uma regra pronta de internet.

Este guia é sobre levantar esses dois números sozinho, porque eles são locais e pessoais: o preço da tela muda de bairro para bairro, e o tempo de suporte muda de modelo para modelo. Quem tem um Android de três, quatro ou cinco anos com a tela trincada está no caso exato deste texto.

A tabela que só você consegue preencher

Você vai encontrar na busca várias porcentagens fechadas — “não conserte se passar de 40% do valor do aparelho”, “o limite é a metade”. Eu não uso nenhuma delas, e explico o porquê no fim. O que uso é esta folha, com quatro linhas em branco que ninguém preenche por você:

O que anotarOnde conseguirPor que essa linha existe
Orçamento da assistência ABalcão ou WhatsApp de uma assistência do seu bairroÉ o preço real, não uma faixa de tabela
Orçamento da assistência BUma segunda assistência, de outra rua ou outro bairroDois orçamentos na mesma cidade costumam ficar bem distantes um do outro
Quanto o seu modelo exato vale usado hojeClassificados, pelo anúncio do meioÉ o valor que você perde ou preserva com a decisão
Meses de atualização de segurança restantesConfigurações do aparelho e página do fabricanteÉ o que você compra junto com o conserto

Leve a folha preenchida para a decisão. Enquanto uma dessas quatro linhas estiver vazia, qualquer conta é chute — inclusive a minha.

Como pedir os dois orçamentos sem levar susto

Na hora de pedir, três frases mudam o número que você recebe.

“Quanto fica tela, bateria e conector de carga, tudo no mesmo orçamento?” Esses três componentes falham na mesma faixa de idade. Se você aprovar só a tela hoje e voltar dois meses depois pelo conector, pagou mão de obra duas vezes e a conta que você fez estava errada desde o começo.

“A tela é original ou paralela, e o preço já inclui a mão de obra?” São as duas variáveis que mais explicam a diferença entre uma assistência e outra. Sem essa pergunta, você compara preços que não são comparáveis.

“Qual a garantia da peça e do serviço, por escrito?” Uma tela paralela mais barata com três meses de garantia e uma original mais cara com um ano são decisões diferentes, não a mesma decisão com preços diferentes.

Para dar escala ao que você vai ouvir, um número de imprensa ajuda: a troca de tela do Galaxy S22 Ultra chega a R$ 1.838, e a do iPhone 13, a R$ 2.269 (TechTudo, junho de 2026 — consultado em 01/09/2026). Guarde a ordem de grandeza, não o valor: ela mostra que a tela de um topo de linha de alguns anos atrás pode custar mais do que um intermediário usado inteiro. E ela não vale como orçamento do seu modelo — vale como aviso de que o susto existe.

Quanto o seu modelo vale usado hoje

Não é o preço de lançamento nem o que você pagou. Procure nos classificados pelo nome completo do modelo mais a capacidade de armazenamento, olhe só anúncios de aparelhos funcionando, descarte o mais caro e o mais barato e fique com o valor do meio.

Compare também anúncio de loja com anúncio de particular. A diferença entre os dois é, mais ou menos, o que você perde se resolver vender por conta própria com pressa — e essa diferença entra na conta se o seu plano for vender o antigo para comprar outro.

Peça os três itens de uma vez

Tela, bateria e conector de carga costumam falhar na mesma faixa de idade. Um orçamento só da tela quase sempre subestima o que você vai gastar até o fim do ano.

A divisão que decide: custo por mês de suporte restante

Com a folha preenchida, eu divido o orçamento total pelo número de meses de atualização de segurança que ainda restam ao aparelho. É a única conta deste texto.

Um orçamento de R$ 600 pesa de formas completamente diferentes conforme a segunda parcela: com dois anos de correções pela frente, sai por R$ 25 por mês de uso protegido; com quatro meses restantes, sai por R$ 150 por mês. Não é o valor absoluto que muda — é o que você recebe por ele.

Para achar essa data, veja em Configurações qual é a data do último patch de segurança instalado, como explico em Android antigo ainda recebe patch de segurança ; se for um Samsung, o prazo depende da linha e do ano de lançamento, e isso está detalhado em quantos anos de atualização o Galaxy recebe . Se o suporte já acabou, eu não gasto com tela: coloco o mesmo dinheiro num usado que ainda tenha janela de atualização, mesmo que ele seja de categoria parecida com a do meu.

Meu corte pessoal fica perto de R$ 100 por mês de suporte restante — acima disso eu troco de aparelho, bem abaixo eu conserto. Esse número é meu, não é regra: quem tem menos folga no orçamento vai colocar o corte mais baixo, e quem depende do celular para trabalhar, mais alto.

Quando a tela não é o único conserto

Refaça a divisão com o total, sempre. Um orçamento que parecia razoável só com a tela pode passar do valor do celular inteiro quando bateria e conector entram na mesma nota — e aí a decisão deixa de ter dúvida.

O inverso também acontece e é menos comentado: em aparelho básico, a soma dos três reparos às vezes continua num patamar em que ainda faz sentido, porque não existe celular novo por esse preço. O erro é comparar o orçamento com “o preço de um celular novo qualquer”. A comparação certa é com o preço de um usado do mesmo nível do seu, com garantia de loja.

Três situações em que eu decido ao contrário da conta

Você não tem backup e a tela não mostra imagem nem responde ao toque. Aqui o conserto deixa de ser conserto e vira resgate de dados. Vale pagar mesmo com a matemática dizendo o contrário — e, com o aparelho de volta, a primeira coisa é tirar tudo de dentro dele antes de decidir o que fazer.

A trinca é só estética. Se o toque responde em toda a superfície e não há mancha crescendo nem vidro soltando, você tem o luxo do tempo: adia a decisão, junta dinheiro e reavalia daqui a alguns meses. Toque falhando ou mancha que aumenta tiram essa opção.

O aparelho é um topo de linha antigo. É o caso em que o valor de mercado mais engana, porque o celular “ainda vale bastante” no papel. Antes de aprovar, pergunte o que aquele mesmo dinheiro compra hoje: uma tela de R$ 1.800 está na faixa de um aparelho usado inteiro, com bateria nova e garantia de loja.

Antes de qualquer coisa, confira se o aparelho ainda tem garantia do fabricante ou seguro contratado com a operadora — isso muda todos os números acima. E se a decisão for comprar outro, resolva a passagem dos dados antes de entregar o antigo na troca: o método certo depende do momento em que você está, como mostro em transferir dados entre Androids .

Por que eu não uso as porcentagens que circulam por aí

Prometi explicar, e é simples: as porcentagens que aparecem na busca quase sempre vêm de quem tem interesse na sua resposta. Quem vende seminovo publica o limite mais baixo, porque abaixo dele você troca de aparelho. Quem conserta publica o limite mais alto, porque acima dele você conserta. Nenhum dos dois está mentindo, e é justamente por isso que os dois números convivem há anos sem que ninguém consiga dizer qual é o certo.

O problema mais fundo é outro: uma porcentagem compara o conserto com o valor do aparelho, e valor não é o que você usa. O que você usa é tempo — meses de celular funcionando e recebendo correção de segurança. Por isso a divisão por meses restantes responde uma pergunta que a porcentagem nem faz. Dois aparelhos que valem a mesma coisa hoje, um com dois anos de suporte e outro com quatro meses, não merecem a mesma decisão, e nenhuma regra de 40% ou 50% enxerga essa diferença.